quarta-feira, 27 de abril de 2016
segunda-feira, 25 de abril de 2016
UM LIVRO EXCECIONAL DE UM ANTIGO COLEGA DE ESCOLA

Antigamente o tempo não se escoava, antes passava de mão em mão, como a Sagrada Família, de pai para filho e deste para o neto, sempre na mesma ampulheta de trabalhos na terra, de geadas para o lavrador se pôr a pau, de torreiras em Agosto a argamassar os regos secos, de romarias a horas como as badaladas das trindades. De modos que o tempo dos antigos era o mesmo dos novos e dos que ainda estavam para vir.
Mas a roda das estações electrificou-se e desatou a girar sem pausas nem esperas pelos mais atrasados. Nas águas dos ribeiros e no lavradio caíram químicos e plásticos, o grão foi enferrujando nas arcas e as giestas e estevas são mais que as mães por entre as fragas e os torrões. Aguilhoados pelo colorido falso do ecrã, os novos foram à vida para outras paragens e até os pinhos desertam lentamente do interior, enegrecidos, no bojo das camionetas, iludidos pelos fogos artificiais arribados na liberdade de Abril. Restam poucos, calvos e brancos.
“(…) há ainda grandes escritores da natureza, conhecedores das gentes e das fainas agrícolas, como Bento da Cruz, Francisco Duarte Mangas ou mesmo, especialmente em Nenhum Olhar, José Luís Peixoto. Vítor da Rocha enfileira, com talento, nessa pequena hoste. (…) Pessoalmente, fiquei preso à leitura do conto admirável que abre este livro: O Anjo e a Puta, uma história bem crua e no entanto puríssima sobre a vida dadivosa de uma prostituta de aldeia. (…)”
Urbano Tavares Rodrigues, recensão para Fundação Calouste Gulbenkian
“(…) O mais inovador, porém, dos textos deste livro (e atrever-me-ia mesmo a compará-lo, em vantagem, com tudo o que tenho ultimamente lido neste enquadramento temático) intitula-se “Toninho, o Último Pinho”. É uma verdadeira obra de arte (…)”
Luísa Mellide Franco, jornal Expresso
quinta-feira, 21 de abril de 2016

Entre 1820 e 1930, o piano foi uma presença constante na vida quotidiana madeirense. A partir do primeiro quartel do século XIX, começou a definir-se no Funchal uma cultura musical em redor do piano, constituída por: saraus privados e concertos públicos, em que a prática musical com piano era o motivo de entretenimento principal; um ensino musical exigente, no qual a mulher ganhou gradualmente protagonismo; um repertório centrado na música para canto e piano, em danças e em peças de cariz brilhante ou virtuoso; e um comércio de importação de pianos, primeiramente de Inglaterra e, numa fase posterior, principalmente da Alemanha. A partir da década de 1930, a prática amadora ao piano entra em declínio, devido à forte concorrência de novas tecnologias tais como os gramofones, a telefonia e o cinema.
quarta-feira, 20 de abril de 2016

“Serviços mínimos”, um livro de poemas com um título prosaico. Como se, através do título, o poeta quisesse levar o peso da prosa dos dias à subtileza da poesia, construindo um inusitado diálogo entre o poema e o quotidiano da sociedade. Se, como dizia, num outro tempo, um outro poeta, “a canção é uma arma contra a burguesia”, a canção de Manhente é também uma arma, sim, mas uma arma contra o conformismo, desenterrando o óbvio e fazendo desse óbvio a fonte da recusa da desistência.
Opondo-se ao atualmente quase omnipresente egocentrismo do poeta, daquele que não sai do seu umbigo e à roda do seu umbigo faz girar toda a sua poesia, José Manhente faz-nos regressar a uma das grandes razões de ser da poesia, a de, através da arte poética, da construção do belo pela palavra, revolver a poeira que nos tapa o verdadeiro entendimento do mundo, a verdade escondida por detrás da tecnocracia ocidental, a verdade de que o ser humano pode e deve ser mais do que produtor e consumidor, mais do que escravo, ainda que pago em míseros tostões, que nunca se transformarão em milhões. “Serviços mínimos” é um livro que presta um máximo serviço ao leitor que recusa os mínimos que o capitalismo lhe atira, como restos do banquete.
Editora Mosaico de Palavras
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