“ Valerá a pena reflectirmos, então, e desde logo, sobre as razões que levaram João de Araújo Correia a optar pela sua condição de escritor eremita, parecendo querer estar longe do mundo dos homens. Por muitas conclusões que se possam tentar extrair da sua obra publicada, é na sua correspondência emitida, no seu pendor confessional, que o próprio escritor nos esclarece e dá a resposta.
Para além da sua ligação afectiva, diria embrionária, à sua terra, ao seu rio e à sua região, plasmada em toda a sua obra, bem como, o seu constante impulso de cidadania, do defensor do património e inquietação para com o desenvolvimento inexistente e a baixa condição cultural das gentes da sua terra, recorrente ao longo de toda a sua correspondência; para além de tudo isto, João de Araújo Correia explica-se em duas cartas.
Em carta enviada ao director do semanário “Ala Arriba” da Póvoa de Varzim, em 1969, escreve o nosso autor: «Sem prejuízo das minhas crenças políticas, sou hoje um eremita confinado à prática de apagadas letras. Depois de certos acontecimentos, que foram para mim grandes desilusões, morri para a política militante. Por amor à República e à Liberdade, arrisquei a vida quando a tinha na mão para sacrificar. Hoje, só o amor à Pátria me obrigará a sair do meu eremitério. É-me tão útil este isolamento que me permite julgar, com absoluta isenção, os homens e as coisas.»
Em carta a Fernando Namora, em 1972, escreve: «Tomara eu que as minhas pobres letras se expandissem pelo mundo todo. Mas, com este meu feitio, próprio de selvagem, metido num buraco, sou incapaz de dar um passo fora do meu âmbito para me tornar conhecido fora do meu país. Quem quer que me descubra me encontrará para qualquer espécie de leal convívio sem eu abdicar da minha casmurrice.»
Mas, João de Araújo Correia nem por isso esteve longe dos homens, dos acontecimentos, do país e do mundo. Por isso se tornou num epistológrafo compulsivo, num leitor de notícias de Portugal e da Europa, num leitor selectivo, abrangente e enciclopédico, satisfazendo a sua sede de conhecimento e de actividade constante em cada tempo do seu tempo.