sábado, 16 de março de 2013

Pare, Escute, Olhe


  Livros
Pare, Escute, Olhe é uma obra total, a síntese perfeita entre estética e ética
Pare, Escute, Olhe é uma obra total, a síntese perfeita entre estética e ética. No campo da fotografia, Leonel de Castro celebra, no golpe de luz que preside à alquimia do grão, nas angulações próprias de um olhar que ama o objecto da sua atenção, a fundura desse vale por onde corre o Tua, as arestas vivas das fragas que o conformam e o corpo das oliveiras que nele irrompem.

Mas também o perfil da gente transmontana que convive com essa garganta, de terrível formosura, talhada contra um céu de lousa riscado pelo milhafre livre. E mesmo o funesto nos parece belo nestas impressões, tingidas por uma devoção que não renega as raízes, antes as cultiva com o fervor e a paixão dos filhos pródigos.

Para lá da sucessão de quadros que, folheando o livro, obriga a reparar no indizível, há essa outra arte, que tanto acrescenta às letras, de Jorge Laiginhas. Pois que ele, escritor da mais fina cantaria, traduz e transforma os calhaus da natureza bruta em rutilâncias de cristal e poesia pura, recuperando localismos, burilando regionalismos, cunhando neologismos que, juntos, compõem um hino exaltante ao povo e à terra que o viram nascer.

Infelizmente, por esta obra notável perpassa o lamento de uma morte anunciada, a da linha do Tua, em função de uma barragem (da meia dúzia que se projecta para a região) que nada trará, em boa verdade, ao vale que vai destruir nem às pessoas que - ainda - o habitam. Assim, mais do que o seu aspecto utilitário, a via-férrea que o livro projecta e evoca é um símbolo da miopia nacional, e outra vítima do centralismo que ignora, e despreza, a magia desse país que lhe escapa do horizonte imediato.

É por isso, por se afirmar como protesto contra o famigerado destino a que a lógica tecnocrata condenou tal vale, que este livro se afigura, também, atitude ética de vasto alcance. Pare, Escute, Olhe é um manifesto contra a perspectiva obtusa dos decisores que, distraídos na contemplação ignara do próprio umbigo, nele concentram o universo sem cuidarem de que há mais mundo. Sem perceberem que Portugal, este torrão vivo que se espraia muito para lá do Terreiro do Paço, só o será por inteiro se nele incluir Trás-os-Montes e o vale que insistem, com zelo assassino, em converter no abismo do esquecimento.

É por isso, enfim, que ler, e ver, e folhear, e parar, e escutar e olhar esse património único é, mais do que um exercício de diletância que se esgota no prazer do texto e da imagem, uma exigência cívica. in Diário de Trás-os-Montes

TÍTULO: Pare, Escute, Olhe
AUTOR: Jorge Laiginhas e Leonel de Castro
EDITORA: Civilização
PREÇO: 40,00 €

sexta-feira, 15 de março de 2013

Ernestina, de José Rentes de Carvalho


                                                              
Um Romance que nos soca o estômago
  Livros
Ernestina, a melhor obra de J. Rentes de Carvalho
«Ernestina conta que nessa altura eram ambos ainda tão castos que nunca tinham trocado um beijo, nem um abraço, e como nenhum deles gostava de dança não sabiam sequer que impressão dava o rodopiar num baile apertados um contra o outro.» Parto deste parágrafo inserido na página 96 deste livro para afirmar que o romance Ernestina é casto, rude, sanguíneo, por vezes febril, mas inquestionavelmente belo.

Numa entrevista conduzida por Rui Ângelo Araújo e Carlos Chaves para o extinto «Eito Fora», José Rentes de Carvalho disse:
«Certo é que a qualidade de transmontano a ressinto eu de uma maneira que sensivelmente difere da das gerações mais novas. Porque venho de muito longe. De um Nordeste que nos anos 30 e 40 não tinha luz nem estrada, e tremia ao ver passar o comboio. Onde no modo de vida, na rudeza dos costumes, nas técnicas, nas alfaias da lavoura, pouca mudança tinha havido desde a dominação romana.

Nesse ambiente e nessa maneira de ser enterram-se o que agora se chamam as «raízes.» As minhas. Juntamente com isso, o passado, as vivências, a memória e a sensibilidade impuseram-me uma certa maneira de observar, tornando-me agente passivo, mero espectador. De modo que tenho a impressão de que não sou eu que «lido», antes diria que sou «lidado» pelas circunstâncias da minha origem.»

Por razões várias eu tinha uma necessidade interior de contar essas histórias. Uma dessas razões, talvez a menor, era a de deixar aos meus netos um relato da sua ascendência. Mas com Ernestina o motivo premente foi o de dar voz aos meus antepassados, sobretudo aos meus dois avós, e de deixar um retrato o mais fiel possível de uma época e de um mundo que se perdeu.

Em obra assim a nudez e a crueza são inevitáveis, porque se em parte nenhuma a vida é uma festa, no Trás-os-Montes desse tempo ela era tragédia permanente. Nessa tragédia participei eu, logo desde a tomada de consciência. Mas nenhuma necessidade de catarse me leva a isso, sim o respeito que me merecem os que sofrem sem se poderem defender, os humildes e os humilhados. Está longe de ser fácil mostrar-me a mim e aos meus numa realidade tão crua, mas essa foi a que testemunhei e a que eles sofreram para que eu sofresse menos e me pudesse libertar.»

Muito autobiográfico, sente-se que a estória corre quase sempre no fio da verdade, escrito com uma elegância que só os mestres conseguem, Ernestina é um livro capaz de socar o estômago, fazer rir, e chorar qualquer transmontano com mais de quarenta anos. Atrevam-se a lê-lo e depois digam-me qualquer coisa.


Nota Biográfica

J. Rentes de Carvalho (1930) nasceu em Vila Nova de Gaia, mas os seus ascendentes eram transmontanos de Estevais, Mogadouro. Frequentou os liceus de Viana do Castelo e Vila Real e os cursos de Românicas e Direito em Lisboa, mas viria a abandonar Portugal por razões políticas. Rio de Janeiro, São Paulo, Nova Iorque e Paris, cidades onde trabalhou para jornais e revistas brasileiros, foram os seus portos de abrigo. Amsterdão seguir-se-ia, em 1956, para onde foi como assessor do adido comercial da embaixada do Brasil e onde se licenciou, na Universidade de Amesterdão. Ali foi professor de Literatura Portuguesa desde 1964 até à reforma, em 1988. in Diário de Trás-os-Montes
Jorge Laiginhas, 2009-02-04
Edição/reimpressão: 2009
Páginas: 320
Editor: Quetzal
Coleção: Língua Comum

quinta-feira, 14 de março de 2013

A MINISTRA

 
  Livros
Trata-se de um romance que aborda o ensino em Portugal
Miguel Real escreveu libros sobre Eça de Queiroz, Eduardo Lourenço, Agostinho da Silva e o Padre António Vieira e escreveu também alguns romances históricos.
«A Ministra» é um livro bastante diferente. Trata-se de um romance que aborda o ensino em Portugal. 

Numa carta de 1902 Trindade Coelho diz o seguinte: «Os Governos não querem que o povo aprenda, e procuram, por todas as formas, impedir o desenvolvimento da instrução.»

Esta é mais ou menos a situação actual na qual se tem procurado manter alunos e professores tão ignorantes quanto possível. Por isso se constata que o abandono escolar é tão grande. As longas horas passadas na escola por alunos e professores são na sua grande parte inúteis. Assim os jovens logo que tenham uma oportunidade procuram outros ares.

«A Ministra» aborda este assunto através de uma professora ambiciosa que além de querer chegar longe na vida é o protótipo exemplar das políticas educativas actuais. Os políticos actuais gostariam talvez de encher as nossas escolas com professores e professoras como a personagem deste romance.

Outra citação de Trindade Coelho: «um país perdido à espera de morrer».
Pode dizer-se que já temos em execução o tipo de ensino para um país perdido. In Diário de Trás-os-Montes
Editorial Quidnovi €12,95

quarta-feira, 13 de março de 2013

França condecora Dulce Maria Cardoso

Escritora transmontana
 
A edição dos livros «Campo de Sangue» (2002), «Os Meus Sentimentos» (2005) e «Até Nós» (2008), já traduzidos em França e noutras línguas, valeu à escritora Dulce Maria Cardoso (n. 1964) a condecoração francesa de Cavaleira da Ordem das Artes e Letras.

O Ministério da Cultura francês justifica a distinção - a entregar em Lisboa, em data ainda a designar - pelo papel que a obra da escritora tem na “irradiação da cultura em França e no mundo”.

Criada em 1957, a condecoração da Ordem das Artes e das Letras corresponde a uma das mais altas distinções honoríficas da República Francesa e homenageia personalidades que se destacaram pela sua contribuição na difusão da cultura em França.

Entre os portugueses que já receberam esta condecoração estão os escritores Lídia Jorge e António Lobo Antunes, a fadista Mariza, o comendador Joe Berardo, o ensaísta Eduardo Lourenço, o editor Manuel Alberto Valente, o coreógrafo e bailarino Rui Horta, a atriz Leonor Silveira, o jornalista Carlos Pinto Coelho e o encenador Joaquim Benite.

Dulce Maria Cardoso, que em 2009 recebeu o Prémio Europeu de Literatura pelo romance “Os Meus Sentimentos”, é autora do livro de contos “Até Nós” e do romance “O Chão dos Pardais” publicado em Portugal em 2009. Em 2011 publicou “O retorno”, sobre a experiência dos retornados, da descolonização de Angola (de onde saiu na infância, via Ponte Aérea), do fim do Império e das suas consequências no Portugal contemporâneo. O romance foi considerado pela crítica como o melhor do ano e venceu ainda o prémio especial da crítica nos Prémios LER/Booktailors 2011.

A escritora nasceu em Trás-os-Montes em 1964, passou a infância em Angola e vive agora em Lisboa. Formou-se na Faculdade de Direito de Lisboa e o seu primeiro romance «Campo de Sangue» recebeu o Grande Prémio Acontece de Romance.

Os Provérbios e a Cultura Popular

Março marçagão




Este fim de semana, com os temporais de tornados e trovões a eclodir por todo o lado, é bem a prova acabada de mais um março marçagão, invariavelmente traiçoeiro: “de manhã cara de cão, ao meio dia cara de rainha, à tarde cara de fuinha e à noite corta como a foicinha”. Não é em vão que o povo do Douro vai dizendo que o “março é merceeiro e tão falso com´ó fevereiro”.
Do fevereiro, a gente já sabia que é velhaco. Afinal, “matou a mãe ao soalheiro”. Em Sabrosa, conta-se que a pobre velhinha, mãe do dito, ao olhar pela janela e, vendo o sol a raiar, perguntou ao filho:
– Olha lá, ó fevereiro, hoje não mandas chuva?
– Hoje não – diz ele. – Hoje mando uma ressa de sol.
Ela então pegou na roca e no fuso e foi para o soalheiro fiar. Nisto, o safado mandou vir uma forte saraivada, e a pobre, como era velhinha, não teve tempo de fugir e morreu ali mesmo. Assim se conta em Sabrosa. Mas em Vinhais conta-se mais. Ouvi a um idoso de Espinhoso que o fevereiro fez vir uma ressa de sol e mandou a mãe ao monte nua. A seguir, mandou uma saraivada e matou-a. Por isso, diz o povo que “o fevereiro é velhaco e traiçoeiro” e que “fevereiro quente traz o diabo no ventre”. Também me contou o mesmo idoso de Espinhoso que, uma velha, já farta do fevereiro, ao chegar a 28, disse-lhe:
– Vai-te embora, maldito fevereiro, que só me deixaste um cordeiro!
E ele:
– Andá lá, anda, que ainda aí vem o meu irmão março que não te deixará nem cordeiro nem farrapo!
Como de facto. O março aí está a fazer das suas. E daí que o povo diga: “O março leva a ovelha e o farrapo e o pastor se é fraco; e o cão escapará ou não”. Mas saiba-se também que, antes de partir, ainda deixa ficar as suas ameaças. Contou-nos o nosso bom amigo e narrador de Espinhoso que, ao aproximar-se o fim do março, uma velha foi-se a ele e disse-lhe:
– Vai-te março marçagão, que ainda me deixas a minha vaca e o meu bezerrinho são!
E ele respondeu:
– Cala-te, velha, que com os três dias que ainda tenho e mais três que me empresta o meu irmão abril, ainda te faço andar com o bezerrinho ao quadril!
A gente ouve o povo dizer estas coisas, e só pode mesmo é vergar-se perante tanta sabedoria.

Alexandre Parafita

Bibliografia:
Gailivro, 2007