Inverno Mágico – Volume I
Tempo e espaço são dois elementos essenciais a qualquer estudo antropológico ou etnográfico.
Neste contexto, os ritos festivos do Inverno Mágico – Volume I acontecem
no tempo cíclico da estação que, no espaço da Terra Fria do Nordeste
Transmontano, se inicia no mês dos Santos e se prolonga até aos alvores
da Primavera. São ritos de culto aos mortos, festas solsticiais
herdeiras das antigas Saturnais, ritos de passagem de uma a outra idade
na vida dos jovens iniciados, mascaradas de esoterismo espontâneo e
funcional, festas da fertilidade ou de culto ao pão, bacanais das
Calendas de Janeiro, libações, comidas comunitárias e celebrações dos
prolegómenos da tão ansiada Primavera, com a ritualidade que a práxis
cristã e medieval determinam e que ciclicamente se cumpre.
Por tudo isto, é justamente este o mais emblemático ciclo festivo deste
“reino maravilhoso”. O clima rigoroso, as neves e geadas de rachar, as
terras de montanha e de povoamento concentrado forçam o aconchego do lar
e o convívio comunitário, carregado de ritos ancestrais de uma magia
tão profunda que só aquele que os vivencia os poderá assimilar em toda a
sua plenitude.
O autor deste livro, sendo um filho desta terra, aprofundou o
conhecimento destes rituais através do método que os antropólogos
designam de investigação-acção, ao longo de três décadas de vivências
conjuntas com aquelas comunidades que teimam em manter vigentes estas
tradições milenares.
Inverno Mágico – Volume II
No decurso da década seguinte à publicação do Inverno Mágico, foi o
autor constatando que “outros ritos e mistérios” persistiam em
celebrar-se com força e vigor. Sentiu, pois, que muito havia para
fazer/pesquisar. Da continuação dos trabalhos de campo resultou uma
reflexão sobre o evoluir da práxis decorrente da contemporaneidade,
constatada nas novas tecnologias da comunicação, da revitalização de
celebrações perdidas ou da introdução de encenações que, embora
radicados na tradição, se orientam agora para a inevitável
“turistização”.
Rituais perdidos que renasceram ou que ganharam uma dimensão nunca
sonhada, adequação de celebrações festivas à modernidade, reconstrução
de ritos de inspiração antiga, de tudo um pouco ocorreu nesta década do
pós-Inverno Mágico.
O aprofundamento dos ritos “esquecidos” no primeiro volume é neste uma
constante, a par de algumas revelações. Era inevitável que assim fosse;
num território tão vasto e tão rico, nem tudo era possível conhecer e
muito menos aprofundar; a sua coincidência no tempo cíclico exige mais
tempo para a todos acorrer; provavelmente, este processo de
reconhecimento não terminou. Assim, os ritos de entrada na estação
escura consolidam os anteriores da lenha dos Santos, acrescidos das
celebrações do vinho novo; outras festas solsticiais (antes adormecidas)
renasceram e as mesinhas do milagroso e mártir Sebastião ganharam agora
um vigor nunca antes visto. Como consequência destes fenómenos, o
presente Inverno Mágico alargou o seu âmbito espacial a uma boa parte do
território de Trás-os-Montes; o seu tempo cíclico prolongou-se até à
Semana Santa que, sendo movediça, se celebra ainda no Inverno (o
transmontano) que neste “reino”, é de “nove meses”. E, acima de tudo,
mágico.