domingo, 6 de janeiro de 2013

A Festa dos Reis no Alto Douro



                           

              A Festa dos Reis no Alto Douro

                               
 [Três gerações de cantadores de reis]
 
            Se noites há em que o refúgio da lareira é uma espécie de bênção dos céus, que sítio melhor haverá para “sobreviver” nas noites geladas e ásperas de Janeiro? Contudo, na noite de Reis, sempre e religiosamente no dia seis, jamais houve borralho, por mais luzidio e crepitante que fosse, capaz de nos amarrar à lareira.
            A festa dos Reis começava com os ensaios à pressa no alpendre de meu avô, onde as sonoridades de velhas castanholas e pandeiretas, desenterradas dos sótãos, se ajeitavam como podiam às vozes de uma legião de estúrdios, já meio treinadas pela tradição. Depois, lá íamos desafiar a morrinha gélida, enchendo de um calor inesperado e milagroso as ruas e postigos da pequena vila do Alto Douro. Com os tamancos barulhentos, dava-nos gosto trilhar e estilhaçar o gelo dos charcos, e com os punhos esborraçávamo-lo nos tanques de chafariz, como quem aplica golpes de cutelo num inimigo feroz. Ninguém notava o frio.
            “Este ano, és tu o do saco, Zé!” - sentenciava um. “O do saco, eu?!” - exclamava o visado, entre aturdido e enlevado. É que o do saco, que recolhia o pecúlio e outras dádivas, era sempre o mais insuspeito, daí a honra de ser o eleito. Por fim, entre os mais afinados escolhia-se o solista, e o grupo começava invariavelmente assim:
 
                  Vimos dar as Boas-Festas,
                  Boas-Festas de alegria,
                  Já nasceu o Deus-Menino,
                  Filho da Virgem Maria!
  
Ainda a canção ia a meio e já a porta se abria, para que a luz da casa a todos acolhesse. E a mesa, embora já levantada da ceia, voltava a encher-se do bom e do melhor. “Quem é o do saco?” - perguntava de dentro uma voz meiga, anunciando uma malga de figos secos, ou uma abada de nozes, prontas a entrar para o bornal do Zé. Às vezes, porém, em casas de maior recato, para que a porta se abrisse tínhamos de orientar a preceito a cantoria:
 
                  Levante-se daí, senhora,
                  Desse banquinho de prata!
                  Venha-nos dar Santos-Reis,
                  Que está um frio que mata!

            E a porta, ainda que timidamente, lá acabava por abrir-se também. Ninguém resistia aos cantadores. Ai, se resistisse!... Havia sempre versos para desfiar em todas as circunstâncias:
 
                  Estas barbas de farelo
                  Não têm nada que nos dar:
                  Nem os restos da merenda,
                  Nem as sobras do jantar!

            A menos que houvesse luto na casa - e aí, sim, respeito absoluto -, ninguém tinha o direito de travar a alegria da noite. Uma alegria que distribuíamos, as mais das vezes, a troco de uma simples malga de figos. E quem é que não tinha, afinal, uma malga de figos para dar? Por isso não havia contemplações com os desmancha-prazeres:
 
                  Esta casa cheira a unto,
                  Aqui mora algum defunto!

            E se o egoísmo ou a avareza dos da casa eram já pecha reconhecida, também não havia perdão. Com voz de falsete, a malta entoava:
 
                  Nesta casa não cantamos,
                  Ali dentro cheira a sebo!
                  O tinhoso que lá mora
                  Ou é moiro ou é galego!

            Corríamos, a pente fino, as casas pobres e ricas. E não se aprimoravam as rimas só porque o senhorio era afidalgado ou pessoa de “teres”. Isso nunca. Mas onde cheirasse a “matança” recente, aí sim, valia a pena o esmero da cantoria:
 
                  Quem “diramos” nós que viva,
                  Na doçura dum confeito?
                  Viva lá o Ti João
                  Que é um homem de respeito!

            Às vezes o esmero do solista levava-o a fazer valer os seus méritos de versejador. E, com novo fôlego, lá acrescentava:
 
                  E respeito quem o tem
                  É homem rico a valer.
                  Abra a porta, Ti João,
                  E venha-nos receber!

            A porta abria-se num instante, como que movida por um acto de magia, e as vozes dos cantadores invadiam toda a casa. O anfitrião, a derreter-se de orgulho, ordena à mulher que encerte o fumeiro, e encarrega-se ele próprio de encher a pichorra. “Olhai que é o melhor pingato da terra!” - vai avisando, entre duas goladas e um sugestivo estalo da língua. Por fim, nós, os cantadores, “inspirados” pelas roscas de salpicão que já nos namoravam os olhos sobre a toalha de linho, tratávamos de pôr termo com chave de ouro à cantoria:
 
                  E p’ra acabar desejamos,
                  Com salpicão, vinho e broa,
                  P’ró Ti João muitos anos
                  E que lhos conte a patroa!

Era assim a noite de Reis, quase mística, quase divina, naquele altar da minha infância, que foi a pequena vila de Sabrosa, no Alto Douro.

 
Alexandre Parafita
(foto de: Fernanda Tabuada)
 

sábado, 5 de janeiro de 2013

NA ANDADURA DO TEMPO

                                                          Um livro de contos admirável.            

                                            Na Andadura do Tempo


Sinopse
Antigamente o tempo não se escoava, antes passava de mão em mão, como a Sagrada Família, de pai para filho e deste para o neto, sempre na mesma ampulheta de trabalhos na terra, de geadas para o lavrador se pôr a pau, de torreiras em Agosto a argamassar os regos secos, de romarias a horas como as badaladas das trindades. De modos que o tempo dos antigos era o mesmo dos novos e dos que ainda estavam para vir. Mas a rodas das estações electrificou-se e desatou a girar sem pausas nem esperas pelos mais atrasados. Nas águas dos ribeiros e no lavradio caíram químicos e plásticos, o grão foi enferrujando nas arcas e as giestas e estevas são mais que as mães por entre as fragas e os torrões. Aguilhoados pelo colorido falso do ecrã, os novos foram à vida para outras paragens e até os pinhos desertam do interior, enegrecidos, no bojo das camionetas, iludidos pelos fogos arribados na liberdade de Abril. Restam poucos, calvos e brancos.

"A literatura portuguesa afastou-se muito do mundo rural. Longe vão os romances de Aquilino Ribeiro ou os Retalhos da Vida de um Mádico, de Namora, o Barranco de Cegos, de Redol, a Seara de Vento, de Manuel da Fonseca, as obras primas de Carlos de Oliveira situadas nos campos da Gândara. A vida mudou, os campos despovoaram-se, a cidade tornou-se o espaço preferido da nossa ficção. Contudo, há ainda grandes escritores da natureza, conhecedores das gentes e das fainas agrícolas, como Bento da Cruz, Francisco Duarte Mingas ou mesmo, especialmente em Nenhum Olhar, José Luís Peixoto. Vítor da Rocha enfileira, com talento, nessa pequena hoste. O seu livro de contos Na Andadura do Tempo, dá-nos retratos e cenas do mundo camponês de grande sensibilidade, observação e dramatismo. Pessoalmente, fiquei preso à leitura do conto admirável que abre este livro: A Puta e o Anjo, uma história bem crua e no entanto puríssima sobre a vida dadivosa de uma prostituta de aldeia. Em todo o livro, a segurança sintáctica, a riqueza vocabular, o poder de comparação de Vítor da Rocha creditam-no como um notável prosador, seguro dos seus temas e processos." Urbano Tavares Rodrigues

Mundo Rural Transformação e Resistência na Península Ibérica (Século XX)





Colaboração com a entidade: Universidade Nova de Lisboa

Preço: 16,20 €

Sinopse:

O mundo rural aparece muitas vezes associado a estagnação, imobilismo, atraso e passividade. Nos últimos anos, as pesquisas realizadas tanto em Portugal como em Espanha têm vindo a pôr em causa estas imagens largamente difundidas. Com a contribuição da Agronomia, Antropologia, História, Sociologia e de outras ciências, analisam-se questões fundamentais para compreender o rumo e o alcance das mudanças que no último século atravessaram os territórios rurais da Península Ibérica.

Detalhes:

Editora: Edições Colibri
Ano: 2004
Capa: capa mole
Tipo: Livro
N. páginas: 290
Formato: 23x16

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

A Mitologia dos Mouros




"É um dos títulos da extensa obra editada por Alexandre Parafita, natural de Sabrosa. No essencial, reúne os conteúdos da sua tese de doutoramento em Cultura Portuguesa, na especialidade de tradições Orais e Cultura Popular. É uma obra sobre mitos e lendas de Mouros e Mouras na vasta região transmontana. Seja como estudo académico ou como manual de consulta, desvenda mistérios guardados na grande memória dos tempos." Armando Gomes


Foto: A Mitologia dos Mouros

É um dos títulos da extensa obra editada por Alexandre Parafita, natural de Sabrosa. No essencial, reúne os conteúdos da sua tese de doutoramento em Cultura Portuguesa, na especialidade de tradições Orais e Cultura Popular. É uma obra sobre mitos e lendas de Mouros e Mouras na vasta região transmontana. Seja como estudo académico ou como manual de consulta, desvenda mistérios guardados na grande memória dos tempos.

Sinopse
A obra A Mitologia dos Mouros debruça-se sobre o mistério que envolve a figura dos mouros na nossa memória colectiva. Apresentados na História como seres de "carne e osso", invasores, pelejadores, opressores, inimigos de Deus, e identificados com múltiplas denominações (sarracenos, agarenos, muçulmanos, maometanos, infiéis, árabes, bérberes, islâmicos, mouriscos, maurescos, moçárabes, mudejares, etc.), os Mouros aparecem, contudo, nas Lendas como seres mágicos, com aparência humana ou não, que guardam valiosos tesouros e vivem nos montes, nas fragas, em torres, nos castros, nas grutas, nas covas, em cisternas, nos dólmens, nas fontes, em lagos ou em rios.
Esta obra procura e dá respostas, por vezes polémicas, que o tempo sempre foi adiando: Quem são, afinal, os mouros da História e os mouros da Mitologia? Que estratégias e interesses político-teológicos se "escondem" nas Lendas de Mouros? Qual a natureza dos tesouros e dos seres encantados (serpentes, gigantes, diabos, touros, cabras, sapos…)? Qual o parentesco dos "mouros míticos" com o demónio? O que fazem os mouros na toponímia e nos "lugares de memória"?
Edição/reimpressão: 2006
Páginas: 462
Editor: Edições Gailivro
Preço: 19,99 € 

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Comidas e Práticas do Sistema Alimentar da Região do Fundão

Esta obra, de inegável interesse etnográfico, resulta de um projeto de investigação no âmbito do Curso de Mestrado em Literatura e Cultura Portuguesas, na especialidade de Culturas Regionais, de acordo com um protocolo firmado entre a Câmara Municipal do Fundão, que tem feito um trabalho emérito de apoio à cultura e preservação dos seus valores culturais, e a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.




Colaboração com a entidade: Universidade Nova de Lisboa
Editora: Edições Colibri
23,00 € 

Sinopse:

Num olhar antropológico à complexidade do fenómeno da alimentação, procura-se entender, nos contornos de um sistema alimentar, os aspetos que lhe definem a cozinha como processo de transformação de "elementos alimentares eleitos" em "comidas de eleição" e, portanto, também como técnica que expressa um saber específico definido em critérios, procedimentos operatórios e modos comportamentais, cujos preceitos e valores relacionem a sua classificação à ordem e à hierarquia em que se institucionalizam as instituições sociais" (da Introdução)

Detalhes:

Ano: 2005
Capa: capa mole
Tipo: Livro
N. páginas: 510
Formato: 23x16